Por Nelson Tanuma
Consultor, palestrante e escritor, especialista em desenvolvimento do potencial humano. Foi dekassegui em 1993 (imigrante brasileiro que viveu no Japão).
Estávamos na primavera do ano de 1993, e eu morava na região periférica de Tokyo. No caminho de ida e volta para o trabalho, tinha de sair da estação Shibuya do metrô e passar caminhando pela praça principal, que fica anexa à estação, para pegar um trem que nos levava até a cidade de Shiba New Town. Certo dia, reparei que, bem próximo à calçada por onde caminhava rotineiramente, existia uma estátua solitária de um cão, feita de bronze, um tanto escurecida pelo tempo. Passou a atrair minha atenção todas as vezes que por lá passava.
Fiquei intrigado com a descoberta por dias. Resolvi, no fim, perguntar a um colega de trabalho nissei chamado Paulo, que morava há mais tempo que eu em Tokyo, se ele saberia me dizer algo sobre a estátua. Fiquei surpreso quando ele me contou que o monumento havia sido colocado ali em homenagem à fidelidade e amizade demonstradas por um cão em relação ao dono.
Isso despertou ainda mais minha curiosidade, de tal forma que procurei saber mais sobre a estátua. Pesquisando melhor, descobri que se tratava de uma homenagem a um cão da raça Akita chamado Hachiko. Ele havia pertencido a um professor da Universidade de Tokyo chamado Eizaburo Ueno, morador dos arredores da estação de Shibuya.
Toda a manhã, Hachiko ia com o professor Ueno até a estação de trem, e voltava no fim da tarde para acompanhá-lo na volta para casa.
No dia 21 de maio de 1925, Hachiko tinha apenas um ano e meio de idade. Estava, como de costume, na estação à espera de seu dono que chegaria no trem das 16h. Porém, naquele fatídico dia, o professor Ueno não voltou. Tinha sofrido um derrame cerebral fatal na universidade.
Após a morte do professor, seus parentes e amigos passaram a cuidar do cão, mas Hachiko continuava indo todos os dias à estação, na esperança de que dono voltasse para casa. Muitos anos se passaram, e mesmo com dificuldades para caminhar, em decorrência de problemas de saúde, Hachiko continuava mantendo a rotina diária de ir até a estação. Sua vigília diária durou até o dia 7 de março de 1934, quando, com 11 anos e 4 meses, foi encontrado morto no local exato onde esperou o dono por tantos anos.
A história de amizade e fidelidade de Hachiko ficou conhecida em todo o Japão e no mundo, quando o Jornal Asahi, no ano de 1934, publicou uma matéria: “Cão velho e fiel esperou por sete anos a volta do seu dono, que já estava morto”.
A história sensibilizou o povo japonês e pessoas de várias partes do mundo. Como conseqüência, a memória de Hachiko foi imortalizada com uma estátua de bronze erguida no local onde morreu.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as estátuas no Japão foram confiscadas e derretidas, incluindo a de Hachiko. Em 1948, quando a guerra já havia terminado, o filho do escultor do monumento original foi contratado para criar uma réplica, que foi colocada no mesmo lugar da anterior. Hoje em dia, todos que passam pela estação de Shibuya podem ver a imponente estátua de Hachiko, eternizando uma das maiores provas de amor incondicional: a amizade e fidelidade de um cão pelo seu dono.
Até hoje, todos os anos, no mês de abril, os admiradores de cães, e especialmente de Hachiko, realizam uma cerimônia em sua homenagem. A história emociona porque nos faz refletir sobre o valor da fidelidade e do companheirismo. Essas qualidades podemos chamar de verdadeira amizade.
"Hachiko continuou indo à estação todos os dias, esperando que o dono voltasse"
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