Erik Farina
Embora ainda esteja longe da aposentadoria, a secretária-executiva Tatiana Silva, 36 anos, já começa a planejar uma via alternativa para ampliar seus rendimentos quando se retirar do mercado. Mesmo contribuindo regularmente com as previdências pública e privada, esta paga pela empresa na qual trabalha, Tatiana pretende abrir uma caderneta de poupança que possibilite uma fonte de renda a mais no futuro.
"Estou organizando as contas para guardar de 10% a 20% dos meus rendimentos em uma poupança, para ter uma aposentadoria mais confortável", calcula. Os planos de Tatiana vão mais longe: depois que tiver um bom volume de recursos guardado, ela irá investir uma parte no mercado de capitais, de olho em taxas de retorno mais elevadas. "Hoje, apenas uma pequena parte do meu salário vai para a previdência; então, é o momento certo para investir em outras alternativas", acredita.
Até hoje, pensar em aposentadoria remetia quase que exclusivamente à previdência pública - o famoso e pouco apreciado INSS - ou aos fundos de previdência privada, com investimentos geridos pelos empregadores ou pelo próprio funcionário junto às instituições financeiras. Mas este quadro está mudando.
Com a fortificação e a solidez do mercado de capitais brasileiro, o crescimento da construção civil, que despeja milhares de novos imóveis no País todos os anos, e o amadurecimento da população por economizar, os trabalhadores começam a observar com mais atenção outras alternativas para uma retirada mais abastada.
Se da previdência pública não se pode escapar, pessoas como Tatiana percebem que podem acelerar a formação de patrimônio financeiro se diversificarem suas aplicações, inclusive substituindo a contribuição com a previdência privada por outras opções. "A previdência privada é cara: tem uma taxa de carregamento de até 3% do que se investe e muitas vezes paga o benefício apenas por um tempo determinado. Ou seja, é preciso buscar alternativas", recomenda o consultor financeiro Mauro Calil, professor do Centro de Estudos Calil e Calil.
Novo xodó do brasileiro, o mercado de capitais surge como uma das principais alternativas. O acumulo de patrimônio em fundos de investimentos pode render tanto ou mais do que os fundos de previdência privada, com as vantagens adicionais de as taxas de administração geralmente serem inferiores e o Imposto de Renda (IR) sobre a liquidação é zero para saques mensais de até R$ 20 mil.
"O mercado de capitais é uma boa opção para poupar para a aposentadoria especialmente se as contribuições forem mensais e o investidor não sacar fatias de seus rendimentos, favorecendo os juros sobre juros", observa Nilton d'Avila Farinati, orientador do Instituto Nacional de Investidores (INI) e sócio da Valor Ativo Assessoria de Investimentos.
Os investimentos de longo prazo (acima de dez anos) no índice Ibovespa, principal termômetro da BM&FBovespa, sempre superam a variação do CDB, o que coloca a posse de papéis como um bom negócio para quem planeja a aposentadoria. A melhor forma de acumular patrimônio pelo mercado de capitais, recomenda Farinati, é iniciar em um clube de investimentos e, quando houver volume recursos suficientes para investir em produtos mais rentáveis, migrar para fundos ou se tornar home-broker (investidor individual pessoa física).
Os aportes na bolsa visando a retirada do mercado são mais eficientes quanto visam empresas que pagam elevados dividendos, mesmo que não tenham variações bruscas dos preços dos papéis. A lógica é ficar às margens da "montanha russa" do mercado de capitais, que pode comprometer a carteira e os rendimentos mensais no futuro.
Ainda dentro dos produtos de investimentos, há os fundos de renda fixa, que compram papéis do tesouro público e remuneram conforme as taxas básicas de juros. Estas alternativas, como CDBs e CDIs, costumam cobrar entre 0,3% e 4% dos ganhos ao ano, o que depende do volume investido e da instituição que administra os recursos.
A cobrança do IR é gradativa, reduzindo conforme o tempo de formação do patrimônio. Pela segurança em médio e longo prazos e a não desvalorização ante a inflação, estes fundos também recebem a simpatia dos consultores financeiros, apesar das restrições quanto ao teto para a valorização.
Em contraste com as opções de investimentos mais modernas e rentáveis, embora algumas com taxas de gestão elevadas, uma opção confortável e sem surpresas é a conhecida caderneta de poupança - como fará Tatiana Silva. Embora não seja admirada pelos consultores financeiros e tenha ficado menos interessante com a recém-instituída cobrança do IR para montantes acima de R$ 50 mil, a alternativa é barata e segura, ideal para quem não quer nenhuma aventura envolvendo seu futuro.
Imóveis são alternativa, mas com restrições
Os produtos financeiros não são a única opção para buscar uma aposentadoria confortável. A aquisição de imóveis pode ser avaliada para a geração de rendimentos futuros, especialmente se o imóvel se valorizar no longo prazo - e carregar para cima o valor do aluguel.
A compra de casas e apartamentos é um aporte seguro e com possibilidade de ganhos permanente. A posse de quatro ou cinco apartamentos em locais com alta procura pode gerar uma renda suficiente para cobrir as despesas. Mas para que o investimento em imóveis valha a pena, é importante que seja comprado à vista, lembra o consultor Mauro Calil.
"Se o proprietário comprar via financiamento, irá colocar seu dinheiro de investimento em juros, que geralmente não serão recuperados mesmo que o imóvel de valorize", alerta. Ou seja, o recurso que poderia estar engordando um fundo para aposentadoria pode acabar indo pelo ralo dos juros bancários. Outro risco na compra de imóveis é sua não ocupação por determinado período, que lançam ao proprietário o ônus de quitar as taxas condominiais.
Dentro do universo dos imóveis, uma alternativa que vale ser considerada é a compra de cotas de aluguel. Este produto, desconhecido pelo brasileiro, mas já vendido por corretoras e companhias financeiras, tem a mesma lógica da aquisição de imóveis para locação, mas não necessita aporte direto em casas ou apartamentos. O investidor compra cotas em investimentos imobiliários, e ao final do mês receber uma participação sobre os aluguéis correspondentes àquela carteira.
"A principal vantagem destes papéis em relação à compra direta de um imóvel é a liquidez: é mais fácil vender fragmentos da participação em fundos do gênero do que vender um apartamento", diz Calil. Os produtos são regulamentados pela BM&FBovespa e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que garante mais segurança e confiabilidade na permuta dos títulos. A transferência dos papéis costuma custar 1% do valor transacionado, taxa que compete com os impostos de transferência de imóveis.
Previdência privada mantém crescimento
| Fonte: Os especialistas Alfredo Meneghetti Neto, Mauro Calil, César Saut e Nilton d'Avila Farinati |
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Enquanto outras alternativas para aposentadoria ganham visibilidade, setores ligados à previdência privada tratam de ressaltar as vantagens destes produtos. Um atrativo apontado é que, ao contrário dos fundos tradicionais, cuja rentabilidade é taxada semestralmente, nos de previdência o IR é cobrado só na retirada do dinheiro. Nesse intervalo, os recursos rendem e fazem elevar o patrimônio.
No caso da escolha da tabela de IR regressiva, o imposto cai de 35% nos primeiros dois anos para 10% após dez anos de aplicação. O plano de previdência PGBL, menos adotado no país que o VGBL, oferece ainda a possibilidade de adiar o pagamento do IR sobre a renda. Até 12% da renda bruta aplicada no plano é dedutível do Imposto de Renda. Por outro lado, no PGBL, tanto a rentabilidade como o patrimônio do fundo são taxados no resgate.
"A previdência privada é regulamentada e estimulada pelo governo. Além das vantagens tributárias, o cliente tem a opção de trocar a gestora de seu patrimônio a cada 60 dias, se não estiver satisfeito com a atual", explica César Saut, diretor do Sindicato das Seguradoras no Rio Grande do Sul (Sindseg-RS). Ele diz que os planos de previdência privada têm taxas de administração cada vez mais competitivas, similares às taxas de alguns fundos de investimentos, e ainda oferecem serviços embutidos.
Em meio a "concorrentes", a previdência privada ainda é um xodó quando se planeja a aposentadoria. A Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) aponta que o mercado de previdência privada aberta arrecadou R$ 19,8 bilhões no primeiro semestre deste ano -alta de 18,1% em relação ao mesmo período de 2009.
Poupança precoce garante futuro
| CLAUDIO FACHEL/JC |
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| Meneghetti Neto diz que é possível começar com menos |
Quanto antes se começar a economizar para a retirada, melhor, já que, independentemente da opção adotada para investimentos, as parcelas serão menores se forem divididas em mais vezes. Além disso, o volume poupado renderá mais juros conforme a passagem do tempo. Os consultores recomendam que a destinação de dinheiro para aposentadoria inicie assim que se obtém o primeiro emprego, o que, além de dar mais segurança ao investimento, possibilitará uma redução no valor das parcelas no futuro. A dica é que se dedique entre 10% e 30% da renda regular para a aposentadoria.
Por outro lado, o professor de finanças da Pucrs, Alfredo Meneghetti Neto, lembra que investir na retirada durante a juventude nem sempre é o mais indicado, pois é o período em que o jovem precisa construir o patrimônio e começar a sustentar a si e a uma família, e nem sempre encontra bons salários. "Se for possível guardar 1% no início de carreira, ótimo. Senão, o cidadão poderá começar a guardar aos 50 anos, dedicando uma fatia maior de seus rendimentos", diz.
Quando se fala em planejar aposentadoria, é importante saber quanto será preciso ganhar na retirada para cobrir seus gastos. O consultor Mauro Calil explica que o trabalhador deve projetar que suas despesas corresponderão a 70% do que enquanto trabalha, uma vez que os gastos com filhos, formação de patrimônio e contribuição para a poupança, por exemplo, serão menores ou desnecessários. Conhecendo quais serão suas despesas, o poupador poderá então selecionar o melhor plano de aposentadoria, tendo a meta de atingir um determinado patrimônio líquido no futuro. Este montante deve gerar juros suficientes para o aposentado quitar suas despesas e viver com tranquilidade. O próximo passo será calcular o valor necessário de economia mensal, sob qual taxa média de juros - o que pode ser calculado por uma média de rendimento dos últimos dez anos - e saber por quanto tempo será preciso poupar.
Vale destacar que, para saber qual será o rendimento líquido, é preciso envolver no cálculo os descontos de IR nos saques, quando existirem. Outro cuidado necessário na escolha de um plano para retirada é a certificação de que a alternativa gera espólios, ou seja, fique como herança após a morte do beneficiário principal. Na maioria dos casos, a transferência ocorre, mas há exceções. Independentemente do produto escolhido, consultores lembram que o importante é o trabalhador conhecer suas opções e avaliar o que há de melhor em cada uma delas.