Todos e cada um de nós precisamos pensar e agir pela salvação do planetaJosé Lutzenberger foi o maior ambientalista da história do Rio Grande do Sul, sendo conhecido nacionalmente por sua contribuição nas questões ambientais. Em 1987 ele criou a Fundação Gaia, que atua na área de educação ambiental e na promoção de tecnologias brandas socialmente compatíveis, como agricultura regenerativa (ecológica), manejo sustentável dos recursos naturais, medicina natural, produção descentralizada de energia e saneamento alternativo. Conheça um pouco mais dessa história, contada pela filha do ambientalista, Lara Lutzenberger.
Como surgiu a Fundação Gaia e quais são as principais ações desenvolvidas por ela?
A Fundação Gaia surgiu em 1987 pelo meu pai, o ambientalista José Lutzenberger. O objetivo maior sempre foi o de contribuir para uma sociedade mais sustentável. Inicialmente o enfoque foi no estabelecimento da nossa sede rural, o Rincão Gaia, situado a 120 km de Porto Alegre/RS. Sobre uma paisagem lunar, árida, decorrente da exploração de basalto, criou-se um lugar encantador que concilia preservação da biodiversidade e criação de espaços paisagísticos com gestão hídrica, criação ética de animais, produção de alimentos e construções que se integram na paisagem.
Também, na mesma época e até o final dos anos 90, atuamos na promoção da agricultura orgânica e no fortalecimento da agricultura familiar como fontes legítimas de segurança alimentar, riqueza sócio-cultural e ambiental. Com uma equipe de agrônomos divulgamos métodos de cultivo regenerativos e promovemos a consolidação de feiras em que o agricultor e consumidor estabelecem o contato direto e pessoal. Esse processo pioneiro alavancou a produção orgânica que segue crescendo até os dias de hoje no estado do Rio Grande do Sul, agora de forma mais independente.
A partir do final dos anos 90, passamos a concentrar-nos no incentivo à mudança cultural, com a promoção de uma consciência e atitude ambiental, especialmente através de oficinas, cursos e vivências oferecidos no Rincão Gaia. Em paralelo, desenvolvemos um amplo programa ambiental de mobilização comunitária em Garopaba/SC e oferecemos consultorias em educação ambiental, levantamentos de biodiversidade, saneamento alternativo e paisagismo natural.
Seu pai, José Lutzenberger, foi o maior ambientalista da história do Rio Grande do Sul, sendo conhecido nacional e internacionalmente por sua contribuição nas questões ambientais. Qual é o sentimento de dar continuidade a iniciativas tão grandiosas para o planeta?
O sentimento que me move é o amor e orgulho que tenho pelo meu pai e o amor e sentimento de responsabilidade que ele me ensinou a ter em relação à grande comunidade terrestre que integramos. Entendo que esse foi o maior legado que ele me deixou: compreender-me co-responsável pelo desdobramento da vida no seu conjunto de manifestações, buscando engajar-me seriamente pelo bem comum e motivando outros a seguir o mesmo caminho.
Segundo Lutzenberger, “O Manifesto Ecológico Brasileiro – o fim do futuro?”, publicado há mais de 30 anos, serviria de grito de alerta aos ecólogos, cientistas e pessoas preocupadas com os iminentes perigos que a humanidade estava para enfrentar. Você considera os tempos atuais como o início do fim do futuro citado pelo seu pai?
O início do fim do futuro começou há 10.000 anos, quando o homem percebeu-se capaz de manipular o ambiente para a conquista de interesses particulares. Passamos a focar nossa existência na produção e consumo de bens até chegar à revolução industrial e consolidar a atual economia de mercado globalizado, que hoje orienta o nosso dia-a-dia pela busca de conquistas materiais e lucros virtuais à custa da destruição de postos de trabalho, de paisagens, habitats, do planeta inteiro e da nossa própria saúde e paz de espírito. Hoje estamos dando os primeiros passos no processo de reversão dessa realidade. Um processo que foi engatinhado por pessoas como o meu pai, que alertaram para o futuro que estava por findar, caso não nos mobilizássemos e passemos a mobilizar muito mais ainda.
Seu pai já dizia: "Todos os países do mundo precisam pensar em como vamos salvar o planeta". Em sua opinião, como podemos salvar o planeta?
Eu atualizaria essa manifestação dizendo: Todos e cada um de nós precisamos pensar e agir pela salvação do planeta. A solução está no efeito cascata que se estabelece na somatória das nossas ações individuais. Diferentemente de outras espécies, conquistamos uma capacidade ímpar de interferência nos processos inerentes ao desenvolvimento e manutenção da terra. Entretanto, temos adotado uma postura arrogante, atribuindo-nos o direito de submeter o planeta inteiro aos nossos anseios. Mas, temos também uma capacidade singular de análise, compreensão e ação consciente. Entendo que é o momento de reconhecermos nossa postura destrutiva e alienada, reaprendermos (o homem primitivo ainda sabia) a dinâmica e os princípios que permitem o pleno desenvolvimento da vida e passarmos a adotar uma atitude mais responsável, comprometida com o mundo sustentável que almejamos. Na medida em que mais e mais pessoas assumem essa postura, o processo entra em movimento e é acelerado pela inspiração e mobilização coletiva decorrente.
A Fundação trabalha fortemente com Educação Ambiental. Quais são os resultados evidenciados por esses trabalhos e qual a importância da EA para a busca de uma sociedade mais sustentável?
A educação ambiental, compreendendo aqui:
1. a educação pela compreensão dos princípios, ciclos e fluxos, ou seja, a ‘fisiologia’ e ‘anatomia’, que garantem a integridade da vida planetária; assim como,
2. o fomento de um espírito crítico num mundo movido por interesses comerciais, alheios e alienantes do que realmente importa, e, finalmente;
3. o estímulo a atitude responsável e gratificante;
é peça-chave na consolidação da mudança cultural capaz de reorientar-nos para a construção de um mundo sustentável, de mais paz, alegria e realizações genuínas. Os resultados de iniciativas de educação ambiental são geralmente difusos e subjetivos, difíceis de mensurar de forma imediata, mas acredito que são efetivos e visíveis no longo prazo, através da mudança cultural que vai se estabelecendo. Como diz um ditado budista: ‘uma árvore que cai, faz bem mais barulho do que a floresta que cresce’. Entendo a educação ambiental como o fertilizante dessa floresta, que cresce silenciosamente.
Você é apontada como sucessora do seu pai na defesa da ecologia e meio ambiente. Qual é o maior desafio enfrentado por você durante a gestão da Fundação Gaia?
Meu maior desafio tem sido o de despertar as pessoas para a percepção da relevância do que estamos oferecendo e engajá-las no processo. Percebo, por exemplo, como pais investem o que têm e, não raras vezes o que não têm, para contratar festas decoradas com elefantes e leões africanos de isopor e plástico, mas relutam em oferecer aos seus filhos vivências como as que oferecemos no Rincão Gaia, em que o contato com a flora e fauna reais da nossa paisagem serve de cenário para a compreensão dos fundamentos da vida. Daí também resulta minha outra maior dificuldade, que é a de conquistar os recursos financeiros necessários para a manutenção de uma equipe e estrutura que nos permitam atuar com mais eficiência.
Como as pessoas podem ajudar a Fundação Gaia?
Participando de nossas atividades, contribuindo com seus talentos e idéias e fazendo doações que revertam para o pleno desenvolvimento de nosso trabalho.
Fonte: http://giselebundchenblog.blogspot.com/
fundação Gaia: http://www.fgaia.org.br/