Propaganda: O fundador da Talent escreve, de novo, para declarar seu amor à profissão.
Por Maria da Paz Trefaut, para o Valor, de São Paulo, 29/10/2009
"Fazer Acontecer.com.br" - Julio Ribeiro
Julio Ribeiro, sem nenhuma dúvida: "Toda grande empresa é resultado do sonho de algum insensato"
Ed. Saraiva 293 páginas, R$ 44
Não trabalhar para empresas de cigarros, bebidas destiladas ou para o governo foi uma decisão do publicitário Julio Ribeiro, há quase 30 anos, quando fundou a Talent. "Os três fazem mal à saúde", resume. As instalações que sua agência ocupa - um andar inteiro de um luxuoso edifício no Itaim, em São Paulo, contornado por janelas de alto a baixo -, deixam claro que o dinheiro que poderia ter advindo desses clientes não fez a menor falta. Já as convicções que Ribeiro desenvolveu sobre o exercício da propaganda deram substrato para o livro "Fazer Acontecer.com.br", que chega em novembro às livrarias.
O livro resulta de uma mixagem do "Fazer Acontecer" lançado em 1994, que vendeu 30 mil exemplares, com seis novos capítulos. Neles, Ribeiro discorre sobre o advento da internet, fala do aumento do poder de compra das mulheres e defende a teoria de que mais importante que tudo é sonhar. "Quanto mais estudo a história das empresas, mais percebo que toda grande empresa é resultado do sonho de algum insensato."
A avaliação que Ribeiro faz de risco e segurança, ousadia e medo tem sua própria história como fio condutor. Em 1980, ele deixou uma situação estável na MPM, na época a maior agência de propaganda da América Latina, para enfrentar o desafio de ter seu próprio negócio. Juntou-se aos sócios José Eustachio e Antonio Lino, e está com eles até hoje. Ganhou e perdeu clientes, teve tristezas momentâneas, mas nunca se desiludiu com a profissão. "Nunca me iludo a ponto de achar que uma conta é nossa para sempre. A conta é do cliente, ele a leva para onde quer."
No livro, Ribeiro fala não só de clientes fiéis, como os "japoneses criativos", personagens de anúncios da Semp Toshiba, empresa de origem brasileira que está com ele há 25 anos e com a qual fez alguns comerciais bastante conhecidos. Mas também cita outros clientes, que permaneceram menos tempo com a agência, para os quais fez campanhas igualmente memoráveis, como uma das mais populares e mais premiadas da agência, que deu origem ao bordão "não é nenhuma Brastemp".
"Fazer Acontecer.com.br" é uma espécie de declaração de amor à publicidade, na perspectiva de quem atravessou grande parte da vida tentando entender os desafios inerentes aos atos de comprar e vender. "Uma das minhas grandes alegrias é acompanhar o sucesso de um cliente, ser capaz de assessorá-lo de forma que ele cresça, em vez de simplesmente fazer propaganda."
De acordo com Ribeiro, não há publicidade que seja melhor do que o produto. Outra certeza: a propaganda é sempre a medida da empresa: "O brilho deslumbra, mas só a realidade aprisiona", sentencia.
Como acontece com todo publicitário, o que mais fascina Ribeiro é a mágica que cria o desejo da compra - ainda que dessa forma se esteja incentivando ainda mais o consumo num mundo em que, com frequência, as pessoas são levadas a comprar o que não precisam. "Na sociedade pós-consumo, nunca se venderam tantos automóveis, televisores, celulares e roupas para pessoas que já têm tudo isso", ele escreve em seu livro.
Marcas de luxo, como Chanel, Louis Vuitton ou Rolex, que sobrevivem a tudo por agregar um valor subjetivo, são exemplos claros dessa cultura de consumismo exacerbado. "A marca é um misto de mágica e de competência", diz Ribeiro. Exemplifica: "Minha mulher acha que os vestidos Chanel a deixam muito bonita, o homem que usa Louis Vuitton sente-se mais distinto do que os outros. As pessoas compram o privilégio de comprar coisas caras".
Esse perfil de consumidor existe entre seus próprios funcionários. Hoje, 70% dos cargos executivos estão com mulheres, que, pelo fato de trabalharem bastante, se dão ao direito de consumir sem culpa. "Vivemos uma nova fase do mercado, em que as mulheres estão entrando na faixa dos altos salários."
No dia a dia da agência, Ribeiro aplica premissas que, segundo ele, tornam o convívio e o ato de trabalhar bastante mais agradáveis. Na Talent, todos os funcionários têm participação nos lucros, até a copeira que serve cafezinho. O que garante, no mínimo, um 14º salário.
Numa época em que tanto se fala em "enxugar a máquina" e "otimizar recursos", Ribeiro diz que não compensa ter um funcionário que deixa de ir ao aniversário do filho para fazer um trabalho cujo resultado pode ser discutível. "O cliente compra talento, não horas extras. Não acredito em trabalho extenuante. Você pode virar a noite sem resultado e ter uma ótima ideia em dez minutos. Nunca tive uma inspiração sentado no computador, escrevendo, escrevendo, escrevendo." Há caminhos melhores: "Se você não pensa, resolve as coisas melhor. O pensamento é perverso, te atormenta a vida inteira com coisas que aconteceram na infância".
Quando a carga horária aperta (é presidente da Talent, da QG Propaganda e da CO.R Projetos de Inovação), Ribeiro paga pelo conforto. É capaz de alugar um jatinho para ir a uma reunião em Florianópolis e voltar a tempo de cumprir o expediente da tarde. "Sou executivo há mais de 40 anos, acho que mereço."
Entre um livro e outro (já escreveu quatro) e a vida de empresário, ele encontra tempo para o lazer. Faz ginástica, estuda piano, desenho, alemão. Uma de suas ambições é um dia alugar um teatro, juntar amigos e dar um concerto.
Aos 75 anos, Ribeiro diz ter aprendido que os desencantos são resultado da leitura que se faz da realidade. Há coisas que "não merecem nossa tristeza". Ficar velho, por exemplo, porque é irremediável. Não é algo que alguma crença religiosa possa resolver. "A religião torna a vida das pessoas tristes. Perdoar o quê? Ter piedade do quê? Não fiz nada..."
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