quinta feira, 08/10/09, por Marcela Buscato, Revista Época
Trocando minhas garrafas por euros. Não é difícil, não. A cara de compenetrada é porque a moça falava alemão e eu não
Manual de sobrevivência na Alemanha: cuidado para não invadir a ciclovia e ser atropelado por uma bicicleta (aconteceu comigo algumas vezes). Quando o moço da barraquinha perguntar se você quer o seu currywurst picante (o famoso salsichão), diga que não se o seu paladar e seu estômago forem delicados (aconteceu com uma amiga e eu aprendi a lição). E não jogue fora as garrafas plásticas (fiz isso algumas vezes). Elas valem dinheiro lá (euros!).
Essa foi uma das iniciativas mais legais que eu vi na Alemanha em relação a cuidados com o meio ambiente. Grande parte das garrafas plásticas usadas para armazenar água mineral, sucos e refrigerantes são retornáveis (como é comum com as de vidro. É só procurar na embalagem pela inscrição “Pfand”, que significa depósito). Funciona assim: quando você compra uma garrafa de água, por exemplo, tem de desembolsar um dinheiro extra. Algo como 25 centavos de euro ou 50 centavos de euro. Mas, da próxima vez que você for comprar outra garrafa de água, você não paga esses centavos a mais se devolver a embalagem antiga. Você até consegue pegar o dinheiro – em moedinhas mesmo – se devolver a garrafa e não quiser outra água. E dá para fazer isso em praticamente todos supermercados, vendinhas de esquina etc…
O melhor desse esquema é que, mesmo que alguém não se importe com o meio ambiente nem com dinheiro a menos no bolso e jogue a garrafa no chão, sempre tem quem ache que vale a pena recolher e pagar menos na próxima compra. É uma boa solução para incentivar a reciclagem de PETs, já que o material não é considerado tão atraente porque, quando reciclado, não pode ser usado para embalar comida ou bebidas. Tem de virar roupa, papel, enfeite – algo ainda pouco comum no mercado.
As garrafas plásticas retornáveis podem ser usadas novamente para armazenar bebidas porque têm sete camadas de plástico. Quando ela volta para a fábrica, a camada interna e a externa (com a qual o líquido e o consumidor entram em contato) são substituídas por camadas novas. Mas o núcleo, as outras cinco camadas, continua o mesmo. E a garrafa não vai parar no lixão, onde leva centenas de anos para desaparecer, mas sim na prateleira do supermercado. Não é uma idéia legal? E não é nenhuma novidade. Na Alemanha, pelo menos, já existe há muitos anos. Na Finlândia, vi o mesmo sistema funcionar.
No Brasil, as PETs recicláveis existem. Mas não se animem. Elas não são nada fáceis de encontrar. Infelizmente, representam uma fatia muito pequena do mercado. A Coca-Cola de 1,5 litro, por exemplo, pode ser encontrada nessa versão apenas no Distrito Federal e em algumas partes do Paraná e de São Paulo, segundo o gerente de embalagens da Coca-Cola, Paulo Villas. Eu nunca vi uma garrafa dessas. Se vi, não percebi porque ninguém me avisou. Alguém já viu propagandas e anúncios sobre isso?
Talvez o consumidor brasileiro ainda ache mais moderno a “novidade” dos descartáveis. Tenho de confessar que em alguns momentos eu também cansei de carregar uma garrafa o dia inteiro e a joguei no lixo (com a consciência pesada, mas joguei). Os alemães parecem ser muito mais contidos no seu uso da Terra. Guardam suas garrafinhas e não pegam sacolas plásticas no supermercado de jeito nenhum. Na maior parte das vezes, é preciso pagar para usá-las. Mas nem quando são gratuitas os alemães usam. Jogam tudo dentro da mochila. Vi uma mãe entulhar de compras um carrinho de bebê – com o bebê dentro. Mas, talvez por causa de pessoas como essa mãe, o bebê dela tenha um mundo menos quente e menos poluído para viver.
por Marcela Buscato, de Berlim, na Alemanha)
http://colunas.epoca.globo.com/planeta
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