segunda-feira, 12 de abril de 2010

CONSUMIDORES DO MEDO - É bom ler e passar adiante!

Editorial do Jornal Zero Hora de 11/04/2010.

Toda vez que um brasileiro viaja para o Exterior, especialmente para países desenvolvidos da Europa ou da América do Norte, surpreende-se com a tranquilidade da vida nas cidades, tanto nos grandes centros urbanos quanto nas pequenas comunas. Invariavelmente, o nosso fictício viajante espanta-se pelo simples fato de poder sair às ruas a qualquer hora do dia ou da noite sem se preocupar com a própria segurança. As razões da perplexidade são tão óbvias quanto dolorosas: no Brasil, vivemos cercados por grades, não dormimos enquanto nossos filhos não chegam, temos que estar vigilantes o tempo todo para não sermos assaltados, já não confiamos apenas nas forças de segurança, não nos sentimos seguros nem dentro de casa, somos vítimas ou testemunhas diárias de homicídios, roubos e furtos, arrombamentos e violência de toda a ordem.

Deixamos de ser cidadãos e nos tornamos todos consumidores do medo. Armamo-nos, mas os delinquentes têm sempre mais poder de fogo até mesmo do que nossas forças policiais. Pagamos impostos elevados e, em muitos casos, serviços privados de segurança, mas o sentimento de desproteção não nos abandona. Os jornais e os noticiosos de rádio e televisão ampliam diariamente o espaço das crônicas policiais, tal a quantidade de crimes, assaltos, arrastões, roubos de veículos, tráfico de drogas. E essa não é uma visão apenas das classes de maior poder aquisitivo: nas periferias das principais cidades e mesmo em áreas rurais de municípios distantes, a violência se faz presente com indesejável frequência. Pacatos moradores de sítios são torturados, habitantes de vilas periféricas são agredidos por traficantes, famílias pobres são negligenciadas pelo poder público, com seus integrantes supliciados pelo ambiente de miséria em que vivem – com crianças maltratadas, mulheres agredidas, homens desesperançados e cativos do vício.

A visão do sociólogo Luís Antônio Francisco de Souza sintetiza bem esta situação: "A pobreza não é causa da violência. Mas quando aliada à dificuldade dos governos em oferecer melhor distribuição dos serviços públicos, torna os bairros mais pobres mais atraentes para a criminalidade e a ilegalidade". Na ausência do poder público, não é incomum que o tráfico e o crime organizado o substituam. E aí a sociedade se divide entre os que têm medo e os que impõem medo.

Quando vamos reagir como sociedade organizada? Quando vamos mostrar nossa inconformidade com esta condição de prisioneiros em nossas próprias casas? Quando vamos nos assumir como cidadãos íntegros, com direito à liberdade, à segurança e ao convívio civilizado? Para isso, certamente, temos que exercer também nossos deveres de escolher como governantes e representantes políticos pessoas íntegras, honestas, comprometidas com o bem coletivo. Precisamos, também, fazer a nossa parte, dar atenção à educação de nossos jovens, construir uma cultura de paz, oferecer exemplos de trabalho, respeito e solidariedade, rejeitar o jeitinho e a esperteza como meios para alcançar o sucesso. Temos direito à tranquilidade, mas só poderemos conquistá-la se cumprirmos também as nossos obrigações para com a sociedade.

Quando vamos reagir como sociedade organizada? Quando vamos mostrar nossa inconformidade com esta condição de prisioneiros em nossas próprias casas?

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